Monteiro Lobato admirava a eugenia, uma ideia
que exalta a “superioridade” da “raça branca" em relação às outras. Em um
trecho
de carta enviada ao médico eugenista e amigo Renato Kehl, Monteiro Lobato expõe:
"Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu
Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício,
mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas
idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato”. O criador da boneca Emília seguia
uma (dita) “ciência” que justifica o racismo.
Lobato chegou a escrever um livro intitulado O Choque das raças ou o presidente
negro, em 1926. Em outra carta, ele explicou a história: "Um
romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos (...). Meio à Wells, com
visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a
primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la
nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence
por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo
professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa".
A narrativa previa, em seu desfecho, a eliminação da raça negra pelos “inteligentes”
brancos através da inserção de uma substância esterilizante em um produto para
alisamento de cabelos crespos.
Em outra carta, enviada a Arthur
Neiva, Lobato lamenta a falta de uma organização como a Ku Klux Klan
no Brasil:
"Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu
respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no
tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma
assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade.
Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar
uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa
frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul
- e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo
Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa
dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste
da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor
porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.”. Para completar, um dos
livros preferidos de Lobato, L’Homme
et les Sociètes (1881), além de desaprovar a miscigenação, defende
que as mulheres, independente da raça, são inferiores aos homens de qualquer
raça. Ou seja, Monteiro Lobato também admirava a misoginia.
Pode-se afirmar, porém, que isso afetou as suas
obras infantis?
Respondo com outra pergunta: qual era o seu referencial e público alvo? Ou melhor: qual era o seu objetivo?
Os termos “macaco", “burro”, “fedorento”, "carvão", "ladrão", "vagabundo", "coisa", dentre outros, são amplamente utilizados por Monteiro Lobato para adjetivar seus personagens negros. Será que Lobato utilizava tais termos de forma ingênua e sem segundas intenções? A resposta parece clara, mas o próprio Lobato a respondeu, certa vez, ao confidenciar que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente". Ou seja, Lobato utilizava a escrita para, indiretamente, propagar a eugenia de forma sorrateira e articulada.
Tais termos são ofensivos sem a contextualização da eugenia
de Lobato? É claro que são! São termos que insultam e humilham. São
termos que atingem, principalmente, crianças e jovens. Não é
necessário, ou melhor, não deveria ser necessário construir argumentações tão
intensas para demonstrar o que é nítido.
"King Kong, um macaco que, depois que
vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador
de futebol?". Piada escrita por Danilo Gentili.
“Quantas bananas você quer pra deixar essa
história pra lá?”. Pergunta de Danilo Gentili a um negro.
"Chupadora de rola de genocida e corrupto". Danilo Gentili, a uma mulher.
"Fanzocas a xingue de puta". Danilo Gentili pede, a seus fãs, que xinguem a uma mulher.
"Chupadora de rola de genocida e corrupto". Danilo Gentili, a uma mulher.
"Fanzocas a xingue de puta". Danilo Gentili pede, a seus fãs, que xinguem a uma mulher.
Danilo faz piadas sobre negros, mulheres, gays, pobres e qualquer
outra minoria que, historicamente, é vítima de repressão.
Pergunto: ele é apenas um humorista ingênuo? Ele desconhece a história da
humanidade, o real significado da liberdade de expressão e dos direitos humanos?
Ele não enxerga as consequências dos próprios atos? Ele não percebe que grande
parte do seu público é jovem e alvo fácil?
Gentili tem 34 anos, formou-se em Comunicação Social, é
empresário, faz sucesso e comanda um programa de entrevistas. Não acredito que
exista ingenuidade em seu currículo. Gentili sabe o que propaga e atinge, busca as consequências, percebe o teor e arquiteta as
falas. Ele não é o “bobão alienado” que demonstra ser e faz questão de parecer. Percebo um homem que - convicto - propaga
“indiretamente” as próprias ideologias.
E, pelo sucesso, “work” muito bem.
Cartas extraídas do texto de Ana Maria Gonçalves sobre Monteiro Lobato, em http://www.idelberavelar.com/archives/2011/02/carta_aberta_ao_ziraldo_por_ana_maria_goncalves.php